Escrever uma boa redação no Enem não depende apenas de conhecer repertórios, decorar conectivos ou dominar um modelo de introdução. Alguns erros podem comprometer seriamente a pontuação e, em situações específicas, levar até mesmo à nota zero.

Entre os problemas mais importantes estão a fuga ao tema, o tangenciamento, a falta de estrutura dissertativo-argumentativa, a argumentação superficial, problemas de coesão, repertório mal utilizado e uma proposta de intervenção incompleta.

A diferença entre fuga e tangência merece atenção especial.

Na fuga ao tema, o participante desenvolve uma discussão que não atende ao recorte solicitado. Já no tangenciamento existe alguma aproximação com o assunto, mas o tema é abordado apenas parcialmente.

Segundo a Cartilha do Participante do Enem, a fuga total ao tema pode resultar em nota zero. O tangenciamento, por sua vez, prejudica fortemente as Competências II, III e V.

Neste artigo, você aprenderá a reconhecer os erros que mais prejudicam uma redação e verá estratégias para evitá-los. ✍️


1. Fuga ao tema: um dos erros mais graves

A fuga ao tema acontece quando o texto não desenvolve a discussão solicitada pela proposta.

Não basta falar sobre um assunto parecido.

O candidato precisa respeitar o recorte temático completo.

Imagine o seguinte tema hipotético:

Desafios para combater a desinformação sobre saúde no Brasil.

Observe uma redação que discuta apenas:

“A internet transformou a sociedade e facilitou a comunicação entre as pessoas.”

O texto fala de internet, mas não necessariamente desenvolve:

  • desinformação;
  • saúde;
  • desafios para enfrentá-la;
  • realidade brasileira.

Se a redação permanecer completamente fora do recorte pedido, pode configurar fuga ao tema.

A orientação oficial do Inep é clara: simplesmente mencionar o tema no título ou deixá-lo subentendido não basta. A discussão precisa ser desenvolvida dentro de seus limites.


Como evitar a fuga ao tema?

Antes de começar a redação, transforme o tema em palavras-chave.

No exemplo:

Desafios para combater a desinformação sobre saúde no Brasil

podemos destacar:

  • desafios;
  • combate;
  • desinformação;
  • saúde;
  • Brasil.

Agora formule uma pergunta:

Por que é difícil combater a desinformação sobre saúde no Brasil?

Sua tese deve responder a essa pergunta.

Exemplo:

A dificuldade de combater a desinformação sobre saúde no Brasil está relacionada à baixa educação midiática de parte da população e à circulação acelerada de conteúdos enganosos nas plataformas digitais.

Pronto.

Agora os dois parágrafos de desenvolvimento podem tratar de:

  1. baixa educação midiática;
  2. funcionamento das plataformas digitais.

A chance de fugir do tema diminui muito.


2. Tangenciamento: quando a redação aborda só uma parte

O tangenciamento acontece quando o participante permanece próximo do assunto, mas não trabalha todos os elementos importantes do tema.

O próprio Inep define o tangenciamento como uma abordagem parcial baseada apenas no assunto mais amplo ao qual o tema pertence.

Imagine:

Desafios para ampliar a inclusão digital dos idosos no Brasil.

Uma redação que fale apenas:

“A internet é importante para a população brasileira.”

está no campo geral da tecnologia, mas não desenvolve necessariamente:

  • idosos;
  • inclusão digital;
  • desafios;
  • Brasil.

Outro exemplo:

“Os idosos merecem respeito e melhores políticas públicas.”

A discussão envolve idosos, mas não necessariamente inclusão digital.

O tema precisa aparecer de maneira completa.


Por que a tangência é tão perigosa?

Diferentemente da fuga total, o tangenciamento não significa automaticamente nota zero.

Mas sua consequência é séria.

Na orientação oficial da redação do Enem, o tangenciamento afeta a Competência II e também limita a avaliação das Competências III e V. A Cartilha do Participante de 2025 informa que uma redação tangencial não pode ultrapassar 40 pontos em cada uma dessas três competências.

Por isso, mesmo um texto com boa gramática pode obter uma nota muito inferior ao esperado se desenvolver apenas parcialmente o tema.


3. Não atender ao tipo dissertativo-argumentativo

A redação do Enem exige um texto dissertativo-argumentativo.

Isso significa que o participante precisa:

  • apresentar uma tese;
  • desenvolver argumentos;
  • utilizar informações para sustentá-los;
  • defender um ponto de vista;
  • apresentar proposta de intervenção.

Um erro grave seria transformar a redação inteira em uma narrativa.

Exemplo:

“João acordou cedo, pegou o ônibus e chegou à escola. Durante o caminho, lembrou-se de tudo que havia acontecido no dia anterior…”

Esse trecho poderia até aparecer brevemente como estratégia argumentativa, mas uma redação composta predominantemente como história não atende ao tipo textual solicitado.

O Inep inclui a não obediência ao tipo dissertativo-argumentativo entre as situações que podem resultar em nota zero.


4. Argumentação superficial

Uma redação pode permanecer no tema e ainda perder muitos pontos porque seus argumentos não são desenvolvidos.

Observe:

“A desigualdade educacional é um problema porque prejudica muitas pessoas. Por isso, precisa ser combatida.”

A ideia está correta, mas é superficial.

Precisamos perguntar:

Por que existe essa desigualdade?

Quem é mais afetado?

Que consequências ela produz?

Qual relação existe entre causa e resultado?

Uma versão mais desenvolvida seria:

A desigualdade educacional é intensificada pelas diferenças de infraestrutura entre as instituições de ensino, pois estudantes que frequentam escolas sem bibliotecas, laboratórios ou acesso adequado à tecnologia dispõem de menos recursos para desenvolver determinadas habilidades. Consequentemente, as diferenças socioeconômicas podem ser reproduzidas no próprio processo educacional.

Agora existe uma relação clara entre:

problema → causa → consequência.


5. Repertório “decorado” sem relação com o argumento

Citar filósofos, filmes, livros, leis ou acontecimentos históricos não garante automaticamente uma boa nota.

Um repertório precisa ajudar a desenvolver o raciocínio.

Observe:

“Segundo Bauman, a sociedade é líquida.”

E depois o aluno muda de assunto.

A citação ficou solta.

Uma utilização melhor seria:

Ao analisar relações sociais marcadas pela instabilidade contemporânea, Zygmunt Bauman contribui para compreender como determinados vínculos se tornam mais frágeis. Essa perspectiva pode ser relacionada…

Perceba que não basta citar o autor.

É necessário explicar:

  1. qual ideia está sendo utilizada;
  2. como ela se relaciona ao tema;
  3. de que maneira fortalece o argumento.

6. Copiar os textos motivadores

Os textos motivadores existem para orientar a reflexão.

Eles podem oferecer:

  • dados;
  • conceitos;
  • perspectivas;
  • informações históricas.

Mas não devem simplesmente ser copiados.

As instruções oficiais do Enem estabelecem que linhas copiadas da proposta de redação ou do Caderno de Questões são desconsideradas para efeito da contagem.

Isso significa que copiar grandes trechos é duplamente prejudicial.

Além de não demonstrar autoria, pode reduzir a quantidade de linhas consideradas efetivamente produzidas pelo participante.

Use os textos motivadores como ponto de partida, não como redação pronta.


7. Texto curto demais

Outro risco é produzir uma redação extremamente pequena.

Segundo o Inep, redações com até sete linhas manuscritas são classificadas como “Texto insuficiente” e recebem nota zero.

Mas escrever oito linhas não significa que o texto terá bom desempenho.

É difícil desenvolver:

  • introdução;
  • dois argumentos;
  • conclusão;
  • proposta de intervenção

em um espaço tão pequeno.

O ideal é utilizar o espaço disponível com equilíbrio, evitando tanto parágrafos excessivamente longos quanto ideias pouco desenvolvidas.


8. Falta de projeto de texto

Uma redação pode apresentar boas ideias e ainda parecer desorganizada.

Isso acontece quando os argumentos surgem sem planejamento.

Antes de escrever, faça um pequeno esquema.

Tema

Desafios da inclusão digital de idosos.

Tese

O problema está relacionado à falta de formação digital e à dificuldade de acesso a tecnologias adequadas.

Desenvolvimento 1

Formação digital.

Desenvolvimento 2

Acesso e adaptação das tecnologias.

Intervenção

Poder público + centros de formação + oficinas gratuitas.

Esse planejamento pode ocupar apenas alguns minutos, mas evita repetições e contradições.


9. Parágrafos que não conversam entre si

Coesão não significa apenas utilizar palavras como:

  • portanto;
  • entretanto;
  • além disso;
  • consequentemente.

É necessário existir conexão lógica.

Observe:

“A desigualdade econômica dificulta o acesso à tecnologia. Além disso, o Brasil possui grande diversidade cultural.”

O conectivo está correto gramaticalmente, mas as ideias não foram articuladas.

Um conectivo não cria sozinho a relação lógica.

Ele apenas sinaliza uma relação que já precisa existir entre as ideias.


10. Excesso de conectivos

Outro problema é tentar colocar conectivos em praticamente todas as frases:

“Primeiramente… Além disso… Ademais… Outrossim… Nesse sentido… Dessa maneira… Portanto…”

O texto pode ficar artificial.

Prefira variedade e naturalidade.

Use conectivos quando eles realmente ajudarem a indicar relações como:

  • causa;
  • consequência;
  • oposição;
  • conclusão;
  • adição;
  • exemplificação.

Qualidade é mais importante do que quantidade.


11. Erros gramaticais recorrentes

A Competência I avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

Um erro isolado não significa automaticamente uma nota baixa.

O problema aparece quando desvios são frequentes.

Entre os pontos que merecem revisão estão:

  • concordância verbal;
  • concordância nominal;
  • regência;
  • crase;
  • pontuação;
  • ortografia;
  • colocação pronominal;
  • construção das frases.

Exemplo:

❌ “Os problemas sociais afeta os jovens.”

✅ “Os problemas sociais afetam os jovens.”

Outro:

❌ “É necessário políticas públicas.”

✅ “São necessárias políticas públicas.”

Ao terminar a redação, reserve alguns minutos para revisar.


12. Períodos longos demais

Um dos erros frequentes é tentar demonstrar domínio linguístico com frases enormes.

Exemplo:

“A sociedade brasileira enfrenta desafios relacionados à educação que por diversos motivos históricos e sociais que se mantêm ao longo dos anos precisam ser enfrentados pelo poder público e pelas escolas que devem implementar políticas…”

A frase fica difícil de acompanhar.

Prefira períodos mais controlados.

A sociedade brasileira enfrenta desafios relacionados à educação. Muitos deles possuem causas históricas e sociais. Por isso, precisam ser enfrentados por meio de políticas articuladas entre o poder público e as instituições de ensino.

Clareza vale mais do que complexidade artificial.


13. Proposta de intervenção vaga

Veja esta conclusão:

“Portanto, o governo precisa resolver o problema e a população deve se conscientizar.”

Quem exatamente?

O que será feito?

Como?

Para quê?

Uma intervenção forte pode apresentar:

  • agente;
  • ação;
  • meio;
  • finalidade;
  • detalhamento.

Exemplo:

O Ministério da Educação deve ampliar projetos de educação midiática nas escolas, por meio de oficinas conduzidas por professores capacitados e profissionais da comunicação, a fim de desenvolver a capacidade dos estudantes de verificar fontes e identificar informações falsas.

A proposta fica muito mais concreta.


14. Intervenção que não resolve os argumentos

A conclusão precisa conversar com o desenvolvimento.

Imagine que você argumentou sobre:

  1. falta de infraestrutura;
  2. ausência de profissionais especializados.

Mas conclui:

“As redes sociais devem fazer campanhas de conscientização.”

A proposta não responde às causas discutidas.

Uma intervenção coerente precisaria envolver investimento em infraestrutura e formação ou contratação profissional.

A redação deve funcionar como um todo:

tese → argumentos → intervenção.


15. Desrespeito aos direitos humanos

A proposta de intervenção deve respeitar os direitos humanos.

Não são adequadas soluções baseadas em:

  • violência;
  • perseguição;
  • discriminação;
  • tratamentos degradantes;
  • eliminação arbitrária de direitos.

É possível defender fiscalização, punições legais, políticas de segurança e responsabilização.

O problema surge quando a proposta viola a dignidade das pessoas.


16. Parte deliberadamente desconectada do tema

Também merece atenção um erro que alguns candidatos podem considerar brincadeira.

Bilhetes para o corretor, frases propositalmente desconectadas ou trechos utilizados para tentar anular a redação podem trazer consequências graves.

O Inep inclui a presença de parte deliberadamente desconectada do tema entre as situações que podem resultar em anulação da redação.

Portanto, não coloque:

  • recados para o avaliador;
  • piadas sem função textual;
  • frases aleatórias;
  • pedidos de nota;
  • trechos que não pertencem ao texto.

17. Colocar identificação dentro do texto

A folha possui espaços próprios para identificação.

Não escreva no espaço da redação:

  • nome;
  • assinatura;
  • iniciais;
  • apelido;
  • rubrica.

A presença de identificação indevida pode levar à anulação, conforme as orientações do Inep.


Fuga x tangência: resumo rápido

Fuga ao tema

O texto não atende ao recorte proposto.

Consequência: pode receber nota zero.

Tangenciamento

O texto aborda somente parte do tema ou fica limitado ao assunto geral.

Consequência: forte limitação da pontuação nas competências relacionadas ao desenvolvimento temático e argumentativo.

Uma dica essencial:

Não escreva sobre o assunto. Escreva sobre o tema completo.


Checklist antes de passar a redação a limpo

Antes de finalizar, pergunte:

  • Minha tese responde exatamente ao tema?
  • Trabalhei todas as palavras importantes do recorte?
  • Cada desenvolvimento possui um argumento diferente?
  • Expliquei minhas ideias ou apenas fiz afirmações?
  • Meu repertório realmente fortalece o argumento?
  • Os parágrafos estão conectados?
  • Minha conclusão responde aos problemas desenvolvidos?
  • A intervenção apresenta agente, ação, meio e finalidade?
  • Há erros de concordância, pontuação ou ortografia?
  • Coloquei alguma informação desnecessária ou desconectada?

Essa revisão pode evitar muitos pontos perdidos.


Exercícios estilo Enem

Questão 1

Tema hipotético:

Desafios para combater a evasão escolar entre jovens brasileiros.

Uma redação discute exclusivamente a importância da educação para o desenvolvimento econômico, sem mencionar evasão escolar, juventude ou os desafios para seu enfrentamento.

O problema principal é:

A) excesso de repertório.
B) fuga ao tema.
C) uso inadequado de conectivos.
D) ausência de linguagem formal.
E) proposta detalhada demais.

Gabarito: B

Comentário: O texto discute educação de maneira ampla, mas não desenvolve o recorte solicitado. A fuga total ao tema é uma situação que pode levar à nota zero.


Questão 2

Tema:

Desafios para valorizar as culturas indígenas no Brasil.

Um estudante escreve apenas sobre a história dos povos indígenas, sem discutir valorização ou desafios atuais.

A abordagem caracteriza principalmente:

A) tangenciamento.
B) fuga completa do assunto indígena.
C) erro de ortografia.
D) conclusão antecipada.
E) excesso de intervenção.

Gabarito: A

Comentário: Existe aproximação com o assunto, pois o texto trata dos povos indígenas. Porém, o recorte da valorização e dos desafios não é desenvolvido adequadamente.


Questão 3

Leia:

“A falta de acesso à tecnologia prejudica os estudantes. Isso é ruim e precisa mudar.”

O principal problema argumentativo é:

A) excesso de exemplos.
B) uso de linguagem estrangeira.
C) superficialidade no desenvolvimento.
D) presença de narrativa.
E) excesso de informações estatísticas.

Gabarito: C

Comentário: O trecho apresenta uma afirmação, mas não explica causas, consequências ou mecanismos do problema. Desenvolver argumentos significa demonstrar como e por que determinada situação ocorre.


Questão 4

Qual conclusão apresenta uma intervenção mais completa?

A) Todos devem fazer sua parte.

B) O governo precisa agir.

C) É necessário conscientizar a sociedade.

D) O Ministério da Educação deve oferecer oficinas de educação midiática nas escolas públicas, por meio de atividades mensais conduzidas por professores capacitados, para ampliar a leitura crítica dos estudantes.

E) O problema precisa ser resolvido urgentemente.

Gabarito: D

Comentário: A alternativa apresenta agente, ação, meio, detalhamento e finalidade, tornando a intervenção concreta e relacionada a um problema social.


Questão 5

Um participante copia diversas linhas dos textos motivadores em sua redação.

Segundo as orientações do Enem, essas linhas:

A) garantem pontuação por repertório.
B) recebem pontuação adicional por fidelidade à proposta.
C) são desconsideradas para a contagem de linhas.
D) substituem a necessidade de argumentação própria.
E) automaticamente garantem nota máxima na Competência II.

Gabarito: C

Comentário: As instruções oficiais estabelecem que linhas copiadas da proposta ou do Caderno de Questões são desconsideradas para efeito de contagem. Por isso, o participante deve produzir seu próprio texto.


Conclusão

Uma redação pode perder muitos pontos não porque o estudante “não sabe escrever”, mas porque alguns elementos essenciais não foram controlados durante o planejamento.

A fuga ao tema é um dos erros mais graves e pode resultar em nota zero.

O tangenciamento também é muito prejudicial porque demonstra que o participante compreendeu apenas parcialmente o recorte solicitado.

Além disso, argumentação superficial, repertório desconectado, falhas de coesão, problemas gramaticais recorrentes e uma proposta de intervenção vaga podem reduzir significativamente o desempenho.

A melhor prevenção é desenvolver um pequeno projeto antes de escrever:

tema → tese → argumento 1 → argumento 2 → intervenção.

Durante a revisão, volte ao tema e pergunte:

Minha redação responde exatamente ao que foi solicitado?

Essa pergunta simples pode evitar um dos erros mais caros da prova.


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  • verificação de fuga ao tema;
  • checklist contra tangenciamento;
  • estrutura da tese;
  • revisão dos argumentos;
  • análise do repertório;
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